quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Paguei, quero nota

Dizem por aí que não é saudável guardar notas e recibos de tudo que compramos e pagamos. Que devemos nos livrar destes papéis, geralmente após cinco anos. Este pensamento não tem vez comigo. E nem com meus pais. Ainda bem, pois graças ao zelo deles, consegui reaver mais um pedaço de História.

O que eu considero deveras saudável, ao contrário de "entendidos de plantão", é examinar caixas, pastas e outros recipientes com papéis, documentos, fotos e todo tipo de item, em busca de algo há muito guardado, há muito esquecido, mas que ajude a relembrar outros tempos desta exuberante existência.
 
Guardar, preservar, conservar, recuperar, relembrar, reviver. Verbos habituais deste que vos escreve. Se você acompanha este blog há algum tempo, já deve estar mais do que ciente.

Foi com este viés saudosista maldito que passei a verificar algumas caixas repletas de documentos, guardados por meus pais. Há de tudo um pouco, documentos bancários e imobiliários, carnês de antigas lojas, cartas pessoais, convites, cartões postais. E muitas notas fiscais de compras, nas mais diversas revendedoras, dos mais diversos produtos.
 
Por muito tempo, me indaguei sobre onde alguns de meus equipamentos eletrônicos (como videogames e microcomputador) haviam sido adquiridos. Foi justamente em uma destas caixas guardadas por meus pais que encontrei respostas. Todos os itens, obviamente, foram comprados por meu pai ou minha mãe, já que, à época, meu irmão e eu éramos infantes, sem qualquer condição de efetuar compras mais "robustas".

Inicio esta viagem no tempo com a nota fiscal do gravador Sharp RD-600X, sobre o qual comentei brevemente aqui no blog. O aparelho foi comprado em 22 de dezembro de 1981, na loja Hermes Macedo, ao custo total de Cr$ 8.5000,00 (sim, eram os tempos do cruzeiro). Foi adquirido por qualquer motivo: por ser novidade ou para gravar situações corriqueiras, vai saber. Eu mesmo gravei a mim mesmo brincando com meus bonekrinhos. Com este equipamento também foram feitos registros do inigualável Circo de Cidra Beach (só quem viveu sabe). Tudo isto, entretanto, é conversa para outra ocasião. Este equipamento, alguns anos depois, foi o primeiro reprodutor de fitas cassete que usei com meu MSX.

A máquina do tempo viaja cinco anos adiante, com a nota fiscal de compra de meu Supergame VG-2800 da CCE. Comprado na Casa dos Gravadores, em 5 de agosto de 1986, com custo total de Cr$ 1.131,00. Inclusive atualizei minhas Lembranças do Atari com este achado.

Há tempos eu procurava a próxima nota. Não me recordava onde meu HotBit HB-8000 fora comprado. Agora tenho esta informação em definitivo. Meu garboso microcomputador também foi adquirido na Casa dos Gravadores (exatamente na mesma loja em que se deu a compra do Supergame CCE), em 11 de agosto de 1987, ao custo de Cr$ 16.562,00.

 

Na seqüência, a nota fiscal de compra do Data-Corder DR-1 da Gradiente. Adquirido na loja Arno Decker, em 25 de abril de 1989, com preço total de Cz$ 282,99 (a moeda aqui era o cruzado). Perceba que só o adquiri dois anos após a compra do HotBit. Neste período, o gravador da Sharp quebrou (e muito) o galho.


Tanto o gravador Sharp RD-600X quanto o Supergame CCE VG-2800 não fazem mais parte de minhas posses. Mas o HotBit HB-8000 e o Data-Corder DR-1 mantenho em perfeito estado de funcionamento.

E se você não entendeu a variação de preços e os valores "absurdos" dos produtos mostrados acima, dou as boas-vindas aos anos 1980 no Brasil. Um console de videogame era vendido por mais de mil dinheiros, um simples gravador de fita cassete era oferecido por mais de 8 mil dinheiros e um microcomputador custava mais de 16 mil dinheiros. Naquela época, o problema muitas vezes nem era o preço de determinado produto, mas o dinheiro, que não tinha qualquer valor. Tempos de moedas fracas, planos econômicos fracassados, trocas de moedas, "tira centavo, coloca centavo, tira zeros das cédulas". Se pensar bem, do jeito que a economia está no atual momento, não seria surpresa se voltássemos a patamares parecidos. Como diria S.D. Bob "Snake" Plissken:


A última nota que apresento, datada de 4 de abril de 1991, é proveniente da Casa das Agulhas, onde adquiri meu primeiro disquete piratex para MSX, conforme já relatei neste texto. Nesta época, a moeda era novamente o cruzeiro.

Estes são apenas alguns dos itens encontrados, mais pertinentes aos temas recorrentes neste espaço. Registros históricos, da vida deste singelo escriba e sua família, bem como vislumbres da "evolução" do mercado e da economia neste país. E que estariam perdidos, se meus pais e eu seguíssemos as sugestões de "filósofos da moda" e "entendidos de plantão".