terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Episódio VII

E a Força despertou!
E com ela voltou à tona uma paixão sempre presente, mas agora anda mais latente.
É hora de saltar ao hiperespaço e comentar sobre Star Wars: Episódio VII - O Despertar da Força.
E esteja avisado: o texto é longo e contém SPOILERS!



Em maio de 2005, quando assisti a Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith, me conformei que aquela seria a última vez em que veria o universo criado pelo tio George, pelo menos na forma de filme live-action nos cinemas. Foi o que todo mundo pensou ao ver Owen e Beru segurando o bebê Luke diante dos sóis de Tatooine. Era o início e o fim ao mesmo tempo. E apesar de todas as críticas recebidas pela nova trilogia, era um encerramento mais do que satisfatório para a saga da família Skywalker.


Então o mundo foi surpreendido no final de 2012, quando a Lucasfilm foi adquirida pela Disney, que logo anunciou a produção de novos filmes.


Vieram o anúncio do elenco, as primeiras imagens dos bastidores, a revelação do título do filme, fotos oficiais dos personagens, os trailers e todas as demais peças publicitárias que só deixaram os fãs mais ansiosos. E, surpreendentemente, tudo envolto em mistério, sem deixar que a trama fosse revelada. Eis que chegamos a dezembro de 2015 e, dez anos após a "despedida", cá estamos novamente a viver novas aventuras cinematográficas naquela galáxia muito distante.


Depois de tanta espera, de tanto auê, de tanta febre, vem a pergunta mais simples e objetiva: o filme é bom? Sim, o filme é excelente, é espetacular. Mas nem por isso deixa de ter seus problemas.

Comecemos do começo. Eu imaginava que seria assim. Podem me chamar de chato, mas senti falta de uma fanfarra de abertura, no logotipo da Lucasfilm. O emblema da empresa simplesmente surge silencioso na tela e vemos a seguir a famosa frase...


Vamos aos aspectos positivos. Primeiro, estamos de volta ao universo do tio George. Lá estão personagens e situações familiares, que sempre atraem e divertem os fãs. Em termos técnicos não há o que divagar. O filme certamente receberá prêmios por seus efeitos visuais e sonoros. A trilha sonora é mais uma obra-prima de John Williams. Todos os temas mais conhecidos da trilogia original são referenciados em algum momento. Entretanto, faltou justamente uma nova faixa com mais destaque (tipo uma Imperial March ou uma Duel of the Fates).

Os novos rostos mostram competência na composição dos personagens. O trio heróico (Rey, Finn, Poe) personifica os anseios do espectador. São as pessoas comuns que se encontram em situações extraordinárias. Quem nunca sonhou em adentrar naquela galáxia muito distante, pilotar naves espaciais, empunhar um sabre-de-luz lendário e combater os agentes do mal? Palmas para Daisy Ridley, John Boyega e Oscar Isaac, que mostraram carisma e desenvoltura. E mesmo tendo grande respeito e reverência para com a saga, não se apequenaram diante da responsabilidade.


O mesmo pode ser dito de Domhnall Gleeson, cujo General Hux, apesar de caricato (principalmente durante o discurso na Base Starkiller), é uma boa composição do típico "imperial malvado". Andy Serkis não tem muito a mostrar, já que o Líder Supremo Snoke ainda é um personagem misterioso (e que provavelmente só se revelará no Episódio IX). A Capitã Phasma, apesar do interessante visual, pouco faz no filme. Mas já vendeu e vai vender muitos bonekrinhos, com certeza.


Sobre o elenco mais experiente, é chover no molhado. Apesar da estranheza inicial em ver os personagens envelhecidos, em poucos segundos já estamos completamente entregues ao carisma de Harrison Ford e Carrie Fisher. E ver Chewie, 3PO e R2 novamente nos traz aquela alegria nostálgica e saudosista. Han e Chewie, aliás, protagonizam alguns dos melhores momentos do filme, seja com boas cenas de ação ou com tiradas bem-humoradas.


E temos que citar também BB-8. O dróide já se mostrava adorável desde sua primeira aparição no teaser do filme. E isto se comprova, já que o robozinho tem uma personalidade peculiar e oferece bons momentos de alívio cômico. E junte a isso o fato de que, exceto por alguns claros momentos com uso de CGI, o dróide é inteiramente prático, com efeitos animatrônicos realizados no set de gravação.


O humor irônico está de volta. E funciona, assim como funcionava na trilogia original (e em alguns poucos momentos das prequels). Nada daquelas situações bobas e infantilóides que Jar Jar proporcionou. Ah, sim. Se você odeia Jar Jar e os ewoks, este filme é seu. Não há qualquer referência a estes personagens.

A direção de J.J. Abrams é correta. Ele oferece nostalgia aos fãs mais antigos, mas sem deixar de buscar o interesse das novas audiências, seja através de cenas em que a câmera se move com agilidade e coloca o espectador no meio das batalhas, ou em diálogos sempre repletos de sagacidade, sem ficarem muito expositivos ou enfadonhos (competência também do roteiro escrito junto com Lawrence Kasdan e Michael Arndt). Os flares (efeitos de luz que o diretor tanto gosta de usar e abusar) ainda estão lá, mas em bem menor escala do que visto em outros de seus filmes. Assim como fez com Star Trek, Abrams trouxe novo fôlego à galáxia muito distante.

Os duelos com sabre-de-luz são bem executados. Aqui os combates são mais diretos, com golpes fortes e perigosos, sem as firulas mostradas nas prequels. A tensão criada funciona, ao vermos um guerreiro treinado contra uma dupla que acabou de encontrar um sabre-de-luz, da mesma maneira que funcionou no primeiro duelo entre Luke e Darth Vader. Ainda assim, causa estranheza o fato de Finn e Rey demonstrarem perícia com uma arma que nunca haviam utilizado. Fica difícil aceitar, mesmo em um universo onde existe a Força, que ambos teriam tamanha habilidade em tão pouco tempo, sem qualquer treinamento.


E há diversos easter eggs. Quem leu o livro Marcas da Guerra teve uma grata surpresa ao perceber que o piloto interpretado por Greg Grunberg é Temmin Wexley, um dos personagens principais daquela trama, então apenas um adolescente.


Quando Rey tem uma visão da Força, ao descobrir o antigo sabre-de-luz que foi de Anakin e Luke, é possível ouvir as vozes de Yoda, Luke e Obi-Wan. Quando Obi-Wan chama Rey pelo nome, é a voz de Alec Guinness, acredite se puder. A partir da palavra "afraid" que o velho Ben profere no filme original, foi possível transformar em "Rey". E a frase final que ela ouve, "Rey, estes são seus primeiros passos", também é proferida por Obi-Wan (Ewan McGregor gravou a frase especialmente para o filme). Além disso, há participações especiais. Daniel Craig (vulgo James Bond) é o stormtrooper que liberta Rey, quando esta usa o truque mental Jedi. E Simon Pegg deu vida a Unkar Plutt, o desprezível comerciante com quem Rey faz negócios.


Agora, os pontos que não funcionaram tão bem. Em muitos momentos a produção parece uma refilmagem de Star Wars: Episódio IV - Uma Nova Esperança. A estrutura é a mesma. Está lá o dróide que foge levando consigo informações vitais que poderão ser usadas contra os inimigos. Está lá a protagonista que vive em um planeta desértico, encontra o dróide fugitivo e, junto com outros personagens, se envolve no conflito. Está lá a cena em uma cantina, com música e os mais diversos alienígenas. Está lá a arma letal capaz de destruir planetas inteiros. Está lá o plano mirabolante para destruir esta arma, com tiros certeiros em um ponto fraco.

Acredito que o filme ganharia mais se focasse na perseguição, na busca pelo mapa, para ver quem encontraria Luke primeiro, ao invés da já conhecida trama do ataque desesperado contra uma estação de batalha (já vimos isto nos episódios I, IV e VI). A dinâmica seria completamente diferente, sem a sensação de "mais do mesmo". Sejamos francos, a Base Starkiller nada mais é do que uma "Estrela da Morte III".


Está lá também o personagem mais experiente, que conduz e orienta os protagonistas mais jovens em suas jornadas. E se sacrifica no processo. Sim, tal qual Qui-Gon no Episódio I e Obi-Wan no Episódio IV, aqui é Han Solo quem dá sua vida em prol dos demais. Harrison Ford sempre quis que o personagem morresse de forma significativa, para ajudar seus amigos. Aqui a trama o leva mais além, já que envolve o grande vilão do filme.


E então chegamos a Kylo Ren. Por muito se pensou que ele era um fanboy de Darth Vader, colecionando artefatos ligados ao Lorde Sith (o que não deixa de ser verdade). Mas há mais sob o capacete. Daí vem a revelação que Kylo é, na verdade, Ben Solo. Filho de Han Solo e Leia Organa. Neto de Anakin Skywalker. Isto certamente torna o personagem mais complexo e mantém a saga como uma jornada da família Skywalker. Mas a revelação é feita de forma desinteressada. A informação é praticamente jogada aos ventos, de qualquer maneira. Tanto que, quando Han e Kylo finalmente se encontram, o espectador já sabe o que vai acontecer. E isto diminui o impacto da morte de Han, mesmo que a cena seja de uma beleza ímpar, com todo o jogo de luzes e as atuações mais do que competentes.


Quando Han o encontra, juro que fiquei esperando que o chamasse de Jacen, se voltasse para Rey e dissesse: "aquela é Jaina" (entendedores entenderão). Adam Driver oferece uma interpretação consistente, embora Kylo Ren se mostre tão chiliquento quanto Anakin (ou mais). Em duas ocasiões, quando seus planos não dão certo, se mostra um "menino mimado" que sai quebrando tudo que vê pela frente, só porque foi contrariado. Por um lado, é interessante, pois mostra a instabilidade do personagem. Mas difere de todas as outras situações, em que se mostra frio e implacável. Podemos teorizar que isto se dá pelo conflito que enfrenta, já que se encontra no Lado Sombrio e tentado pela Luz (tentação que ele renega justamente ao assassinar o próprio pai).

Outras situações são forçadas. Ou como explicar o extremo poder que Rey descobre e domina em pouco tempo? Certo, ela é poderosa com a Força. Mas o que Luke levou três filmes para conquistar, ela consegue em instantes, muitas vezes levada apenas pelo desespero da situação em que se encontra (e pela conveniência do roteiro). De novo, acho que entra o fato do filme ser voltado para novas gerações, em que tudo deve acontecer rapidamente e ir direto à ação.

Sabemos que Poe Dameron é um dos melhores pilotos da galáxia, mas daí para dar cabo praticamente sozinho da Base Starkiller, forçou a amizade. Ou será ele também um Jedi em potencial?

Ou a apatia de R2-D2, que se encontrava em "modo stand-by", desde que Luke desapareceu. Como explicar que ele tinha praticamente todo o mapa da galáxia guardado em sua memória e, mesmo com a presença de BB-8 e sua parte restante do mapa, só voltou à ação quando era conveniente para a trama (e tudo isso somente após todo o ataque à Base Starkiller)?

E o que comentar sobre Luke Skywalker?

 
O último Jedi aparece rapidamente durante a visão de Rey. E no final do filme. Nada fala, apenas observa. E mesmo sem uma linha de diálogo, sua aparição é suficiente para que o espectador pense: "agora o negócio ficou sério". O visual de um mestre experiente, mas cansado e triste, trouxe uma nova percepção do personagem. Infelizmente, fica nisso. Aguardemos as cenas dos próximos episódios.

E daí vem outro problema: o final é extremamente anti-climático. Temos a emoção de encontrar Luke. E embora a cena final seja belíssima (uma panorâmica aérea em uma locação singular), como nunca antes apresentada na saga, é justamente o fato de deixar o gancho para o próximo filme que oferece não um gostinho de "quero mais", mas uma sensação de que faltou algo ou de que poderia terminar de outra maneira. Talvez a melhor forma de explicar seja esta: tal qual os dois primeiros filmes da trilogia O Hobbit, por já se saber que outros episódios viriam a seguir, não se criou um esforço para mostrar um final pleno para o filme em questão. O filme apenas acaba.


Apesar das inconsistências, O Despertar da Força é um excelente filme, um grande espetáculo e um ótimo entretenimento.
Sem sombra de dúvidas, é mais um marco para a franquia, ao acumular recordes de bilheteria e angariar novas gerações de fãs. Talvez para os velhacos rabugentos como este que vos escreve, os poucos problemas do roteiro tenham sido mais marcantes. Ou talvez eu esteja sendo negativo e precise ser mais cauteloso com meus pensamentos.
Afinal de contas, apreciei muito ter voltado a uma galáxia muito distante, encontrado velhos e novos conhecidos e embarcado em mais uma aventura repleta de ação, humor, duelos e todas as peculiaridades que só o universo concebido pelo tio George pode oferecer.

Enfim, que venham os demais episódios.
E que a Força esteja conosco...